ALÔ, ALÔ, SAUDADE! - Coluna de PAULO MORAES

Lia e dona Maria, dois símbolos, duas paixões

 

(Foto: Divulgação)


 Abro o olhar do passado e vejo duas belas figuras da arquibancada. Lia e dona Maria José Elas são lembranças de uma paixão que povoou e ainda habita os estádios de futebol de Pernambuco nas tardes de domingo e noites de quarta-feira ou de qualquer dia.

   Lia fez história de amor pelo vermelho e branco do Náutico, ela que já nos deixou, para ir ao encontro de Deus e dos irmãos Geo e Jorginho. Geo foi ponta-esquerda do time do Sport campeão estadual de 1955. Era um ataque fabuloso formado por Traçaia, Naninho, Gringo, Soca e ele, Geo. Essa linha avançada os rubro-negros mais antigos não haverão de esquecer.  Geo andou pela Bélgica uns tempos, na venda de sua habilidade futebolística. Não o vi jogar mas segundo os narradores da época, era bom de bola. E se assim não fosse, não continuaria dono da onze da Ilha até 1957.
   Quanto a Jorginho, também foi ponta- esquerda. Mas adversário do irmão. Jogou no Náutico e no Santa Cruz. Pelo Santa foi supercampeão em 1957. Estava num ataque inesquecível:  Lanzoninho, Faustino, Rudimar, Mituca e ele, Jorginho. No jogo do título, Geo foi o ponta do Sport. Também não tive o prazer de ver Jorginho em campo. Me aproximei dele já dirigente do seu Tricolor.

Dona Maria José, sempre vestida nas cores de sua paixão (Foto: noticiamira.com.br)


   Falei, falei. E Lia? Era repórter da TV Globo em 1983, quando a entrevistei pela primeira vez, numa reportagem especial junto a Bacalhau, torcedor coral de saborosa memória. Lia era alvirrubra fanática, frequentadora da sede de Rosa e Silva desde cedo, nos dias de jogos. De lá, o rumo era a social da sua segunda casa, o estádio dos Aflitos. Ou seria a primeira casa? Nunca vi Lia com uma roupa que não fosse com as cores vermelha e branca. Morreu solteira, ou melhor, era casada com o N-á-u-t-i-c-o.
   E dona Maia José? 96 anos feitos em janeiro. Nasceu em Nazaré da Mata. Aos 12 anos, já sem pai e mãe, mudou- se pra Carpina, que fica perto de sua terra natal. Lá se apaixonou pelo Sport local, o pobre, como costuma dizer. De Carpina transferiu- se em 1950 para o Recife, onde se encontraria com o Sport rico. É seu grande amor até hoje. Na cidade grande, se reuniu a uma família pra morar com ela no bairro central da Boa Vista.  Casou uma vez, não teve filhos e ficou viúva. O marido a deixou
na saudade pra atender um convite de Deus.

Sport, bicampeão pernambucano em 1956. Em pé, Dante Bianchi (técnico), Osvaldo Baliza, Bria, Djalma, Zé Maria, Mirim, Pinheirense e José Rozenblit (diretor); agachados, Traçaia, Naninho, Gringo, Soca e Geo, este irmão de Lia (Foto: Arquivo do Blog)

 

   Por muito tempo residiu com pessoas descendentes da família que a adotou, eles alvirrubros do Náutico. Dona Maria José, que nasceu em 1925, teve uma vida de criança e adolescência muito dura, viveu sempre como doméstica. Mora hoje sozinha numa casa cedida pelos seus bons patrões recifenses. É um lar pintado nas cores rubro-negras por todos os lados.
   Meus contatos com dona Maria José de Oliveira, foram sempre na Ilha do Retiro. Nas sociais do estádio do seu clube querido. O chão da parte da arquibancada privilegiada da Ilha foi palco tantas e tantas vezes do seu entusiasmo e alegria, ao pular ao som do frevo que agita os pernambucanos, sempre aos gritos do "Cazá, Cazá, Cazá, Sport, Sport, Sport". Igual a Lia, a roupa número um dela, é nas cores do seu clube, vermelha e preta. Na sua companhia uma inseparável sombrinha rubro-negra.
   A querida dona Maria é sócia benemérita do Sport. Quando morrer quer ser velada na sede do seu eterno amor.
   Lia Carvalho e dona Maria José de Oliveira, duas personagens que estão encravadas na história desse apaixonante esporte que é o futebol!

Santa Cruz, supercampeão de 1957: Sidney, Diogo, Aníbal, Aldemar, Edinho e Zequinha; agachados, Lanzoninho, Rudimar, Mituca, Faustino e Jorginho, irmão do rubro-negro Geo e da alvirrubra Lia

   Dedico este artigo às mulheres que frequentam a arquibancada dos nossos estádios. E especialmente a Dulce Rosalina e Elisa, que também foram baluartes em defesa do Vasco e do Corinthians. Musas, as quatro, guerreiras e inesquecíveis, reverenciadas nas cores vermelha e branca, vermelha e preta, preta e branca, branca e preta. Nós agradecemos a essa paixão!
   Bom dia, boa tarde ou boa noite.
A todos. Até o próximo assunto! 

 



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