O ÚLTIMO DOS MOICANOS

 Por ANTÔNIO MATOS - Jornalista e Delegado de Polícia aposentado, autor do livro ‘Heróis de 59,' que narra a conquista da I Taça Brasil pelo Bahia. antonius74@bol.com.br

 


Time do Bahia, campeão da Iaça Brasil- em pé, Beto, Nadinho, Henricão, Flávio, Vicente e Nenzinho (ex-Náutico, Santa Cruz, Sport e Central); agachados, massagista Santana (trabalhou no Santa Cruz, na fase do pentacampeonato), Marito, Alencar, Leo, Mário e Biriba (Foto: reprodução)


Foto: Time do Bahia, campeão da primeira Taça Brasil- em pé, Beto, Nadinho, Henricão, Flávio, Vicente e Nenzinho (ex-Náutico, Santa Cruz, Sport e Central); agachados, massagista Santana (trabalhou no Santa Cruz na fase do pentacampeonato), Marito, Alencar, Leo, Mário e Biriba (Foto: reprodução)

SALVADOR – Fazendo uma analogia à obra de James Fenimore Cooper – mais tarde, transformada num filme de aventura, sucesso de bilheteria e ganhador de um Oscar e de um Globo de Ouro – que tem como tema a Guerra dos Sete Anos, 
conflito entre a Inglaterra e França por terras na América do Norte e no continente asiático, ocorrido no século XVIII, vejo Henricão, zagueiro de área do Bahia, campeão da I Taça Brasil e que nos deixou no último dia 16, como o personagem Chingachgook, o último chefe da tribo dos índios moicanos.

Dos 22 jogadores do elenco tricolor que conquistou a Taça Brasil de 1959 – incluindo os atacantes Carlito e Meruca, que não chegaram a atuar –, Henrique dos Santos, o ‘Gigante de Ébano’, com seus quase dois metros, era, até então, o único vivo daquele grupo vencedor, dirigido pelo treinador Efigênio Bahiense, o Geninho, e formado pelo matreiro presidente Osório Villas-Boas, com a dedicação e o apoio financeiro do diretor Benedito Borges de Mello.

Convencido por Lourival Lorenzi, seu antigo técnico na Portuguesa/RJ, e entusiasmado pelo fato de vir acompanhado do volante Joe, amigo e parceiro na Lusa carioca, desembarcou em Salvador em janeiro de 1957, “pensando em mudar de ares, com pretensões de passar uma temporada”.

Henricão jámais imaginaria que ficaria 10 anos no Bahia, pelo qual faria 590 partidas – todas como titular – se tornaria ídolo e ganharia cinco títulos estaduais seguidos, de 1958 a 1962, um brasileiro em 1959, dois Norte-Nordeste e dois vice-campeonatos das Taças Brasil de 1961 e 1963, além de jogar as Libertadores de 1960 e 1964.

O seu aguerrido futebol apresentado no time tricolor ainda permitiu que participasse, em 1957, em Santiago, da Seleção Brasileira, representada por jogadores baianos, que enfrentou, por duas vezes, o Chile, na disputa da Taça O’Higgins.

Carioca do Méier, retornou ao Rio, em maio de 1967, após encerrar a carreira como jogador. Teve, a seguir, parte da perna esquerda amputada, em razão de problemas decorrentes de um corte no pé, e, ultimamente, sofria de demência, sequela do impacto dos cabeceios nas antigas bolas de futebol, bem mais pesadas do que as atuais. Era tão bom neste quesito que, certa vez, Pelé confidenciou ao radialista baiano Martinho Lélis que, apesar de toda impulsão que tinha, dificilmente ganhava dele pelo alto.  

Viúvo, com quatro filhos – três baianos – frutos de dois relacionamentos, Henricão continuava romântico, fã de Jamelão e vaidoso, mantendo a mania de usar anéis da época de boleiro. Torcedor do Flamengo, desde garoto, era eternamente agradecido à Portuguesa, onde começou, e ao Bahia, que lhe deu projeção nacional.

Uma miocardiopatia hipertrófica, associada a uma insuficiência aórtica, levou o nosso Henricão, aos 89 anos, revelando uma triste constatação: os heróis, à exceção dos que ilustram as revistas em quadrinhos, também morrem.  
 

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