A DEVOÇÃO DE SER TRICOLOR

 

Tricolores Leonardo Dantas e Capiba (Reprodução Blog Fernando Machado)


 

 

                                                                                     LEONARDO DANTAS SILVA



(Artigo escrito para o livro Santa Cruz de Corpo e Alma)



 

 

            Tonico, meu filho!

Ser tricolor é uma paixão que nos persegue há várias gerações.

            Bem antes das cores hoje reverenciadas – o encarnado, o preto e o branco –, já o teu avô, Antônio Machado Gomes da Silva Neto, de quem herdaste o nome completo e o apelido familiar, usava no chapéu palheta as cores primitivas do clube: branco e negro.

            Sim Tonico, este mesmo Santa Cruz, “o querido do povo, terror do Nordeste, no gramado”, como lembra o hino do teu Vovô Capiba, já foi cria da casa dos teus bisavós. Havia entre o primitivo clube dos rapazes do Largo da Santa Cruz e a nossa família, uma relação parecida com a do rio Capibaribe e o Recife, como no poema de João Cabral de Melo Neto, ... “vivo com esta gente, entro-lhes pela cozinha; / como bicho de casa / penetro nas camarinhas.”...

            Suas primeiras reuniões aconteceram na casa n.º 2 da Rua da Mangueira (hoje, Leão Coroado), onde residia a família do despachante da Alfândega Adolpho Silva, o teu bisavô, conforme assinala o jornalista Givanildo Alves, in História do Futebol em Pernambuco. (Recife: Secretaria de Educação e Cultura, 1978).

            Sim Tonico, isso tudo pertence a um passado distante: “mil novecentos e antigamente”, diria você.

            Vivia-se o ano de 1914, o Recife saíra há pouco de uma revolução, que levara ao Governo do Estado o general Emídio Dantas Barreto, pelas suas ruas ainda transitavam os bondes puxados por burros, a cidade era iluminada a gás, a iluminação elétrica só viria aparecer cinco anos depois, mas o futebol, inventado pelos ingleses, já era disputado na campina do Derby e em outros locais, desde 1904.

            O esporte das multidões, praticado inicialmente entre os simpatizantes do English Eleven, trazido da Inglaterra pelo pernambucano Guilherme de Aquino Fonseca, que aqui fundou o Sport Club do Recife (1905), contagiou os rapazes da Boa Vista que, em 3 de fevereiro de 1914, vieram a fundar o Santa Cruz Futebol Clube. Ali mesmo, no Pátio da Santa Cruz, na calçada da igreja da mesma devoção.

            Por essa época, as cores do clube eram o preto e o branco, as mesmas do então Flamengo (Recife), as quais foram acrescidas, no ano seguinte, do encarnado, por sugestão do 1º secretário, Luiz Gonzaga Uchoa Barbalho. – É desta época a vinculação do teu avô, também Tonico, com o Santa Cruz. Vínculos que, com o passar dos anos transformaram-se em paixão, como estão a registrar velhas fotografias, onde toda a família, inclusive o velho Adolpho Silva, aparece vestida com as cores do tricolor. Lembranças de um tempo em que se cantava pelas ruas da Boa Vista: Ai meu Deus, que barulho! / Quantas palmas, que horror! / Torcedoras estão contentes / A vibrar com o tricolor...

            Porém, Tonico, é bom que saibas, que ser tricolor não é somente curtir alegrias e emoções, iguais àquelas que sentimos, nesta quinta-feira, ao conquistar por antecipação o campeonato de 2005.

            Ser tricolor é também cultivar o sofrimento e tirar proveito da resignação.

            Fundado em 1914, somente em 1931 é que este nosso Santa Cruz veio a conquistar o seu primeiro campeonato, repetindo o feito nos dois anos que se seguiram e se alternando, com o Náutico, o Tramways, o Sport e o América, em outros anos, até conquistar o bicampeonato em 1946-47.

            Daí, Tonico, foram dez anos sem campeonato. Dez anos com algumas vitórias, é verdade, mas sem campeonatos. Passei toda a minha infância torcendo por um Santa Cruz que não conhecia o sabor de um campeonato. Só quando tinha onze anos, é que o meu clube veio a ser supercampeão de futebol, em 1957, vencendo também os juvenis e aspirantes, tomando de alegria o Recife e, por extensão, todo o Nordeste.

            Só então o nosso amigo Capiba, que fizera um hino para o Santa Cruz em 1947, pôde gravar na Rozenblit, com as modificações pedidas pelo momento, aquela melodia que todos conhecem: Santa Cruz! / Santa Cruz! / Junta mais esta vitória! / Santa Cruz! / Santa Cruz! / Ao teu passado e glórias!

            As “Repúblicas Independentes do Arruda”, como assim chamava o jornalista Aramis Trindade, vieram a ser conhecidas em todo o Brasil. A escalação do time supercampeão – Aníbal, Diogo e Sidney, Zequinha, Aldemar e Edinho, Lanzoninho, Rudimar, Faustino, Mituca e Jorginho –, andava na memória de todo mundo, inclusive na minha, que nunca fui dos mais entendidos de futebol.

            Veio mais um campeonato, em 1959, e depois, novamente, quase uma década sem que o “clube das multidões” viesse a sentir o gostinho de mais um título. Ser torcedor do Santa Cruz, era se tornar objeto de pilhérias, chacotas, brincadeiras, por parte dos aficionadas do Náutico, e muito principalmente, do Sport, que se autodenominava de “o papai da cidade”.

            O Santa Cruz não tinha o seu próprio campo. Nas partidas do campeonato era forçado a enfrentar seus adversários na Ilha do Retiro ou nos Aflitos. O seu campo no Arruda, só utilizado nos treinamentos, era situado num terreno comprado por Aristófanes de Andrade, na época em que José do Rego Maciel fora prefeito do Recife (1953-55), sendo apelidado pela torcida de “Alçapão”.

            Os tempos de glórias, porém, sorriram novamente nos anos setenta, quando o Santa Cruz veio a se sagrar várias vezes campeão e a dispor do melhor estádio do Nordeste, criado pelo traço do amigo Reginaldo Esteves e construído com o esforço de tantos abnegados tricolores.

            Sim Tonico, hoje o Santa Cruz vive as alegrias da conquista de mais um campeonato, mas lembra-te que a devoção de ser tricolor foi gerada na incerteza daqueles anos de jejum, dos quais os mais velhos tricolores, como Marco Antônio Maciel, João Ricardo Tavares de Lima, Edson Perruci, Abdias Moura, Ivanildo Sampaio, Ronildo Maia Leite, Paulo Moraes, Carlos Garcia, Joezil Barros, Gladstone Vieira Belo, Zenaide Barbosa, José Menezes, Guedes Peixoto, Edson Rodrigues, hoje tão presentes, sem falar de outros que se encontram na eternidade, como José Antônio Gonsalves de Mello, Luiz Bandeira, Antônio Camelo da Costa, Adonias Moura, José Maria Garcia, Capiba, Jofre de Andrade, João Santiago, poderão testemunhar.

Obs.: o autor deste texto morreu nesse sábado, 11/11/2023, no Recife, aos 77 anos..          

 

 

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