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| Foto: Reprodução |
UMA PAUSA NA GUERRA PRA VER
PELÉ JOGAR
Uma das façanhas mais
extraordinárias de Pelé não é muito conhecida do grande público: sua fama e
prestígio chegaram a tal ponto que foi capaz de paralisar uma guerra. Esse fato
inusitado aconteceu em 1969, durante uma das várias excursões do Santos à África.
Isso ocorreu no Congo Belga,
pelo menos durante a partida, quando forças do Congo-Kinshasa (ex-Zaire) e
Congo Brazzaville estiveram pacificamente no mesmo estádio para ver Pelé jogar.
O mesmo aconteceu dias depois,
quando o governo da Nigéria assegurou que não haveria confronto na região de
Biafra enquanto o Santos estivesse no país - promessa cumprida.
Na época em que Pelé vivia
empolgando os amantes do futebol em todos os quadrantes do globo terrestre nem
se sonhava com a internet. Suas jogadas maravilhosas tinham que ser
presenciadas ao vivo, das arquibancadas. Havia também a televisão, mas em
muitos lugares com imagem e som bastante precários. Os jornais da tela, que
passavam nos cinemas, antes dos filmes do dia, ajudavam um pouco.
O REI NO RECIFE
Apesar dessas dificuldades, a
paixão pelo Rei do Futebol dominava o mundo. Nesse aspecto, o Recife pode ser
considerada uma cidade privilegiada, posto que várias vezes, ele esteve aqui,
instalado no Hotel São Domingos, localizado na Praça Maciel Pinheiro, junto da
qual em época anterior a célebre escritora ucraniana Clarice Lispector viveu
sua adolescência, ou em trânsito. Entre idas e vindas, ele era sempre admirado
por uma legião de admiradores que ficavam à frente do hotel, esperando-o subir
ou descer do ônibus para ir jogar ou treinar.
Foi na Ilha do Retiro que o
mineiro de Três Corações sofreu a segunda expulsão de sua carreira. Num
amistoso entre o Santos e a Seleção Pernambucana, o gaúcho Alfredo Bernardes
Torres, oficial do Exército e juiz de futebol, expulsou em lances isolados quatro
jogadores do Peixe, e um deles foi o Rei.
NÃO ATIREM, PELÉ CHEGOU
Uma das inúmeras histórias
vividas por Pelé aconteceu na tal excursão de 1969 à África, quando sua
presença interrompeu uma guerra. Episódio assim relembrado pelo próprio Pelé,
em 2020: "Um dos meus grandes orgulhos foi ter parado uma guerra na Nigéria,
em 1969".
O Continente Africano era um
mar de chamas, pode-se dizer assim, depois de muitos países terem deixado de
ser colônias de nações europeias, tornando-se independentes. Havia a disputa
por poder e territórios.
O Santos era muito bem pago
por esses jogos, que se transformavam em espetáculos.
Congo e República Democrática
do Congo negociaram uma trégua para que o time santista pudesse cruzar da
capital de um país para a do outro pelo rio e jogar dos dois lados da
fronteira.
Mas a história da guerra que
Pelé parou foi na cidade de Benin, na Nigéria. O país enfrentava um conflito
civil por causa de uma tentativa separatista da região de Biafra.
“Foi decretado feriado, foi
decretado um cessar fogo. Embora não estivesse acontecendo nenhuma batalha
naquele momento, a situação de guerra se estendia, gerando escassez de comida,
recurso”, explicou o historiador Gabriel Pierin, segundo texto publicado pelo
Globo Esporte.
Naquele ano, uma delegação
santista viajou para a Nigéria e foi homenageada pelas autoridades do país. Foi
também o retorno de dois ex-jogadores do time de 1969: Edu e Manoel Maria, o
melhor amigo de Pelé.
“Já naquela época, muita
festa, porque o Pelé, por ser negro, né? Ele se sentiu representado, no mundo”,
conta Manoel Maria.
São poucos os registros desse
episódio, que com o passar dos anos, ganhou outros contornos.
“Eu ouvi de Gylmar, Coutinho,
atletas que participaram dessa partida, que logo que o avião estava zarpando,
eles ouviram lá embaixo tiros”, diz o escritor Odir Cunha.
A versão do escritor e
pesquisador mineiro Victor Kingman é esta:
“O antigo Congo Belga vivia
uma sangrenta guerra civil. Assim que a delegação do Santos chegou ao país,
onde disputaria uma partida amistosa, os dirigentes foram informados do
conflito e do consequente cancelamento do jogo. A notícia de que a população não
poderia ver o Rei do Futebol jogar causou uma grande comoção, inclusive entre
as partes em luta.
Então os conflitantes entraram
num acordo e a guerra parou para que o jogo fosse disputado. O Santos acabou
realizando duas partidas na Região e a paz reinou no Congo Belga naqueles dias,
sem que nenhum tiro fosse disparado.
Assim que a delegação,
escoltada até o aeroporto, deixou o país, a guerra recomeçou...”

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