Times tradicionais femininos são engolidos pela elite


Acostumado a fazer bonito no Campeonato Brasileiro Feminino, o Vitória das Tabocas, da cidade de Vitória de Santo Antão, a 50 quilômetros do Recife, associou-se ao Santa Cruz para disputar o ‘oxigenado’ certame de 2019, que conta com equipes que estão chegando, mas com muita força.

Na sua estreia, o combinado Vitória-Santa Cruz, mesmo tendo atuado como mandante, rendeu-se ao Internacional, tendo levado uma goleada de 5 x 0, na Arena de Pernambuco, no domingo 17 de março. No sábado seguinte, pela segunda rodada, as tricolores – de Vitória e do Recife – exibiram-se, ou melhor, viram o Flamengo se exibir em Duque de Caxias/RJ, levando outra goleada, agora em dobro, pelo placar de 10 x 0.


O Vitória, que como o Sport pensou em desistir, levou 10 x 0 do Flamengo (Foto Divulgação)


– A nossa realidade é bem diferente da do Sul e do Sudeste. Não temos apoio financeiro e está difícil fazer bons times com a chegada das equipes de camisa, que aliciam nossas atletas com salários maiores. Não sei se essa situação para o futuro será boa para o futebol brasileiro porque os clubes que revelam as atletas vão ficar desestimulados – disse Paulo Roberto Arruda, presidente do Vitória.

TIROU O TIME

O jargão tirou o time de campo aplica-se literalmente ao Rio Preto Esporte Clube, da cidade de Rio Preto/SP. Vice-campeão brasileiro em 2018, quando tinha uma parceria com uma associação de futebol feminino da sua cidade, o Rio Preto desistiu de disputar o certame deste ano. Alegou que não tinha condições de arcar com os custos financeiros para formar um elenco competitivo.
Um dos motivos citados pela diretoria do Rio Preto são os salários solicitados pelas atletas, que aumentaram consideravelmente após a inclusão das equipes da elite do futebol masculino. Porém, apenas 15% dos times têm todas as atletas do elenco com carteira assinada.
– Os custos para a disputa estão altamente pesados. O mercado, com a entrada de grandes clubes na disputa, está inflacionado. Os salários solicitados por atletas medianas é superior aos pagos ao masculino (o Rio Preto disputa a Série A3 do Campeonato Paulista, equivalente à Terceira Divisão). Teríamos grandes despesas com alojamentos, alimentação, transporte, hospedagem, entre outros, fatos que analisados na ponta do lápis nos fizeram rever nossas posições – disse o Rio Preto através de nota.


Vice-campeão de 2018, o Rio Preto jogou a toalha (Reprodução internet)


Contudo, apesar da entrada de clubes da elite masculina no Brasileiro feminino, a disparidade de valores entre as diferentes equipes de uma mesma instituição ainda é muito grande.
No Corinthians, que foi campeão brasileiro feminino no ano passado, um dos clubes com maior investimento na categoria, a folha salarial da equipe gira em torno de R$ 170 mil por mês, com as atletas ganhando, em média, R$ 7 mil. No time masculino, treinado por Fábio Carille, a folha mensal do elenco é de cerca de R$ 10 milhões.
ESCASSEZ
Um motivo citado como preocupante é o pequeno número de jogadoras para atender todas as equipes.
– Se os dirigentes entenderem que o futebol feminino é interessante, a tendência é esses times diminuírem. Eu vejo isso porque não temos material humano para 52 equipes. Com 36 equipes na Série B, vamos ver resultados de décadas passadas, como 10 a 0, 15 a 0 – disse Emily Lima, técnica do Santos e que já comandou a seleção brasileira.
Na Série B do Campeonato Brasileiro, que começa nesta quarta-feira, 27, o Aliança, atual campeão goiano, também demonstra preocupação.
– Na minha opinião, os times sem camisa (equipes que não têm futebol masculino) vão acabar. Somos um time 100% amador, trabalhamos com meninas desde os dez anos e é tudo de graça para a comunidade. Os times de camisa têm dinheiro e vão se reforçar demais. Eles vão poder contratar e dar uma boa estrutura de alojamento, enquanto a nossa tendência é sumir- afirmou Luiz Cézar, treinador e presidente do time.
Já Foz Cataratas/PR e Kindermann/SC, campeões da Copa do Brasil em 2011 e 2015, respectivamente, dizem que o segredo para se manter na ativa é trabalhar dentro das possibilidades e continuar revelando atletas.
– Vamos continuar mantendo os pés no chão e buscando revelar atletas. Hoje existem muitos clubes que possuem maiores condições de tirar nossas jogadoras. Porém, sai uma, buscamos outra no mercado. Somos um clube revelador e vamos continuar fazendo esse trabalho. É a solução – declarou Gesi Damasceno, presidente do Foz Cataratas, parceiro do Athletico-PR, que é responsável pelo licenciamento.
Com a desistência do Rio Preto, campeão brasileiro em 2015 e segundo colocado no ranking feminino, o Internacional ganhou o direito de disputar a primeira divisão do Brasileiro feminino. No ano passado, o clube gaúcho ficou em terceiro lugar na Série B.
As coloradas chegaram dando logo o recado ao aplicar duas goleadas – 5 x 0 no Vitória/PE, fora de casa e 7 x 0 no São Francisco/BA, no Beira-Rio. Em compensação não viram a cor da bola diante do Corinthians, em São Paulo, levando uma surra de 5 x 0.
ARRANJADINHO
Outro beneficiado foi o Vasco, que herdou a vaga do Internacional e disputará a segunda divisão. A princípio, os cariocas ficariam fora do certame porque ocupavam o 14º lugar no ranking masculino.
Todavia, a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) utilizou o ranking para incluir na Série B os times mais ricos do País, que estavam fora da primeira divisão B.
Os outros clubes da elite do masculino que disputarão a Série B são Atlético-MG, Botafogo, Ceará, Chapecoense, Cruzeiro, Fluminense, Palmeiras e São Paulo. O Bahia também está no torneio após fazer parceria com o Lusaca, que já havia disputado o campeonato em 2018 e estava classificado, assim como o Grêmio.
SÃO PAULO SE REFORÇA
Maior goleadora em Olimpíadas entre homens e mulheres, com 14 gols, a atacante Cristiane foi apresentada nessa terça-feira, 26, como um grande reforço do São Paulo. Ela não escondeu o fato de ter recebido propostas de outras equipes - tanto do Brasil quanto do exterior. Ao lado do diretor Antônio Luiz Belardo, do supervisor Amauri Nascimento e do técnico Lucas Piccinato, a jogadora explicou o motivo de sua escolha pela equipe paulista. O presidente Carlos Augusto de Barros e Silva, o executivo de futebol Raí e o superintendente de relações institucionais Diego Lugano também marcaram presença na entrevista coletiva.
A disputada Cristiane reforça o São Paulo (Rubens Chiri/São Paulo FC Net)

– O São Paulo foi o clube que mais demonstrou interesse no Brasil. Tive propostas de fora, do Barcelona e do Lyon. Pensei na minha mãe, então queria ficar no Brasil, não sabia em qual clube. E o São Paulo apostou em mim para ajudar no desenvolvimento – completou.
EXIGÊNCIA

A criação das equipes femininas para esta temporada foi uma das exigências da CBF e da Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol). A entidade sul-americana exige que todos os clubes que disputem seus campeonatos tenham um time adulto e de base femininos, enquanto o Manual de Licenciamento de Clubes da CBF é mais brando. Este solicita apenas que as agremiações da Série A do Nacional tenham um time feminino, adulto ou de base, e que disputem um torneio nacional ou estadual neste ano.
O Profut (Programa de Modernização da Gestão e de Responsabilidade Fiscal do Futebol Brasileiro), também prevê “apoio mínimo” à modalidade.
REGULAMENTO DA SÉRIE A
Campeonato Brasileiro da Série A, com  a participação de 16 clubes. A competição foi dividida em quatro fases. Na primeira, já em disputa, os 16 times se enfrentam em turno único. Os 8 melhores colocados avançam para as quartas de final, que serão realizadas em jogos de ida e volta. A semifinal e a final também serão disputadas em partidas de ida e volta.
REGULAMENTO DA SÉRIE B
Com a participação de 36 equipes, o Campeonato Brasileiro Feminino da Série B começa no dia 27 de março. A competição será disputada em cinco fases. Na primeira, os clubes serão divididos em seis grupos com seis times cada e jogam em turno único dentro da chave. Os dois primeiros de cada grupo avançam para a segunda fase, que passa a ser disputada em sistema eliminatório, com jogos de ida e volta até a final.
TIMES DA SÉRIE B
GRUPO A
Ceará (CE)
Tiradentes (PI)
Oratório (AP)
Santa Quitéria (MA)
Esmac (PA)
São Valério (TO)

GRUPO B
Operário (MT)
Atlético (AC)
São Raimundo (RR)
Pinheirense (PA)
3b Sport (AM)
Porto Velho EC (RO)

GRUPO C
Náutico (PE)
Botafogo (PB)
Lusaca/Bahia (BA)
Canindé (SE)
Uda (AL)
Cruzeiro FC (RN)

GRUPO D
Palmeiras (SP)
Atlético-MG
Portuguesa (SP)
Grêmio (RS)
Toledo (PR)
Moreninhas (MS)

GRUPO E
Vasco (RJ)
Fluminense (RJ)
Cruzeiro (MG)
Taubaté (SP)
Aliança (GO)
Cresspon (DF)

GRUPO F
Botafogo (RJ)
São Paulo (SP)
América (MG)
Chapecoense (SC)
Duque de Caxias (RJ)
Vila Nova (ES)

 (Da nossa redação, com informações de Isadora Santos, jornal O Estado, de Fortaleza/CE, e Folha Press)


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