O cronista deu uma mãozinha na bandeirinha


Antigo campeonato nacional, ano de 1972.  Centro Sportivo Alagoano (CSA) e América do Recife iam se enfrentar no Estádio Eládio de Barros Carvalho. Ambos já estavam eliminados, sem qualquer aspiração na competição. 

Jogariam para cumprir tabela. Chegaram a pensar em não ir a campo, mas mudaram de ideia. Se agissem por conta própria ao tomar tal decisão, seriam severamente punidos pelos poderes vigentes, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e o  Conselho Nacional de Desportos, o CND, que estava atento a tudo. Enfim, seria uma vergonha para o campeonato que fazia as vezes do Brasileirão de hoje, embora com outra planificação – os clubes, que a cada ano subiam de número, eram divididos em vários grupos.

Naquele dia, nas arquibancadas dos Aflitos, apenas 29 gatos pingados, conforme ficou registrado no borderô. Renda de 145 cruzeiros. Não deu nem para pagar aos porteiros. Os times ameaçaram dar uma farrapada, mas foram a campo. Porém, o juiz escalado, Antônio Góis, não apareceu.

Comentarista José Bezerra


O pernambucano Cleiton Beltrão, o bandeirinha número 1, assumiu a missão, de acordo com as regras da arbitragem. Ainda não havia o juiz reserva e foi necessário Cleiton Beltrão usar sua imaginação para arranjar outro bandeira para completar o trio.
O árbitro foi informado de que o hoje comentarista da Rádio Clube José Bezerra, na época repórter da Rádio Olinda, tinha feito o curso de arbitragem na Federação Pernambucana de Futebol, não exatamente para apitar jogos, mas para se aprimorar nas leis que regem as partidas de futebol. No melhor estilo pelada, o cronista esportivo foi solicitado a dar uma mãozinha.

Procurado por Cleiton, Bezerra, sobre quem o narrador Bartolomeu Fernando dá toda ênfase ao tratá-lo como O Príncipe de São Caetano, fez uma consulta ao chefe da equipe da Olinda e conseguiu botar outro repórter no seu lugar. Foi para o campo. Não para fazer alguma reportagem, mas para dar suas bandeiradas.

E quebrou o galho, embora no início tenha andado atrapalhando a vida do árbitro porque ao correr junto à linha lateral, saía balançando seu instrumento de trabalho, como dizem os narradores, naquele movimento de qualquer pessoa que está correndo. Só que ele levantava o braço direito, o que carregava a bandeira, levando o juiz a pensar que alguma irregularidade estava sendo marcada.

No intervalo, o bandeirinha foi amigavelmente advertido pelo juiz a respeito da maneira correta de correr. Cumpriu sua tarefa até o fim, sem qualquer problema. O América venceu por 2 x 1 e o CSA nem protestou a presença de um elemento estranho no trio de arbitragem. Mas protestar para que, se sua causa já estava perdida?

Por LENIVALDO ARAGÃO

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