Toco, Travo e Canela


Caju amigo


VALDIR APPEL - Colaborador


São Januário.
O treino recreativo dos vascaínos terminou. Os jogadores tomaram o seu banho e, em seguida, embarcaram no ônibus do clube que os conduziu a concentração no Hotel das Paineiras. O jogo contra o Fluminense seria sábado, no Maracanã, pela Taça Guanabara.
O juvenil Ézio, que morava na Ilha do Governador, e geralmente descolava uma carona com Brito ou Oldair, ficou a pé.

Ézio perguntou pro enfermeiro Jorginho se ele sabia de mais alguém que iria praquele lado.
“O Mané Garrincha mora lá. Tá fazendo forno de Bier no joelho”!
Ézio ficou sem jeito de pedir e coube a Jorginho falar com o jogador, que concordou em levar o garoto.

Embarcaram no imponente Impala do Garrincha e seguiram num silêncio mudo. Mané não falava e Ézio não tinha coragem de tentar um diálogo. Estava ao lado de uma lenda viva, coisa que jamais imaginara, e isto já era o suficiente pra ele.



Ao atravessar a ponte para a Ilha, Mané falou pela primeira vez:
“Aceita beber um caju amigo”?
Ézio respondeu que sim, sem saber o que era um caju amigo.

No Jardim Guanabara, Garrincha conduziu o carro lentamente margeando a praia. Viu uma vaga de estacionamento e freou abruptamente. Ao invés de se posicionar à frente para dar ré e balizar o seu carro, Mané ficou calculando a possibilidade de colocá-lo de frente. Indeciso, provocou um imenso congestionamento.

Dois guardas de trânsito, alertados pelo buzinaço e xingamentos ao motorista do carrão que não se movia, abordaram o descuidado. Ao reconhecerem Garrincha, os braços dos guardas se ergueram sinalizando para os carros que estavam atrás pararem. Como se isto ainda fosse necessário. Depois empurraram os veículos estacionados que limitavam a vaga, um para frente e outro para trás, abrindo o espaço de tal forma que caberia até um ônibus. Mané pôde então estacionar sem nenhuma dificuldade.

Os guardas agradeceram ao Mané Garrincha a oportunidade de poder ajudá-lo e sacaram os seus bloquinhos de multa para que ele os autografasse. O ponta-direita mais famoso do mundo assinou como Manuel dos Santos, seu verdadeiro nome.

Mané atravessou a rua com seu passo torto junto com o Ézio. Dirigiu-se ao barzinho preferido, acenou para os conhecidos e convidou o garoto a sentar-se com ele em duas banquetas junto ao balcão.

Pediu dois 'caju amigo'. Èzio curioso para saber o que era.

O dono do bar serviu dois pratos, em cada um colocou três pequenos cajus, sal e uma dose reforçada de pinga. Garrincha passou sal no caju, chupou-o e detonou a cascavel de prima.
Ézio só olhou. Mané perguntou:
“E aí garoto, vai?
“Pode ser uma cervejinha, seu Mané”?
“Pode”!
Mané trocou o copo vazio pelo cheio do Ézio e procedeu da mesma maneira que fez com a primeira dose.

Mané pagou a conta e tocou seu carro direto para o prédio onde morava, no Dendê. Subiram ao apartamento de cobertura e surpreenderam Elza Soares na sala de jantar de bobs no cabelo. Garrincha beijou-a e apresentou Ézio:
“É um juvenil do Vasco, dei carona pra ele.”
Elza preocupou-se:
“Você não deu bebida pra ele, né bem”?

Garrincha abraçou e deu um beijo de despedida no garoto, desejando-lhe boa sorte na carreira.
Ézio partiu feliz e faceiro, disposto para a longa caminhada até a sua casa na distante Freguesia.]

Mané só ficou sabendo o nome do juvenil quando jogou lado a lado com Ézio um amistoso do Vasco em Cordeiro/RJ, quando vestiu uma única e inesquecível vez a camisa vascaína.
Mas esta é outra história.
(1967)


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