Futebol Pernambucano

 



UFANISMO DOENTIO


CLAUDEMIR GOMES


 

Futebol é momento. Isto é fato. E o momento torna sua realidade volátil. Tentar se guiar pelo retrovisor é perda de tempo. Afinal, é pra frente que se anda. Insistir em conjugar o verbo no passado é uma tentativa inócua de pular o presente em busca do futuro. Eis o mal que desidratou o futebol pernambucano, e segue sendo alimentado por um ufanismo barato, sem consistência e viciante.

Segunda-feira, assistia pelo YouTube à transmissão do jogo Santa Cruz 1x1 Altos/PI. Me surpreendi quando, no gol do Tricolor Pernambucano, um empolgado narrador se saiu com a pérola: “É o terror do Nordeste!”. No sábado (16/08/2025), não soou bem aos meus ouvidos, quando o narrador do confronto – Sport 2x2 São Paulo – por várias vezes, se  referiu ao time da Ilha do Retiro como “o melhor do Nordeste”. Em diálogo, íntimo e pessoal, cá com meus botões comentei: tem alguma coisa errada. Isso ou é fake News; ufanismo crônico e destrutivo porque vende uma verdade mentirosa e fantasiosa, ou desaprendi, por completo, fazer a leitura dos fatos. “O Terror do Nordeste”, como bradou o gordinho em sua empolgação, disputa a quarta divisão do Campeonato Brasileiro. Nos últimos 20 anos esteve em apenas duas edições da Série A e tem no seu acervo apenas um título da Copa do Nordeste. “O melhor do Nordeste”, como gosta de enfatizar o narrador todas as vezes que se refere ao Sport, é o lanterna da Série A do Brasileiro, candidatíssimo ao rebaixamento. As semifinais da edição 2025 da Copa do Nordeste serão disputadas nesta quarta-feira: Bahia x Ceará e CSA x Confiança. Observamos que, nem o “Terror do Nordeste”, tampouco o “Melhor do Nordeste” estão na briga pelo título regional. Nos últimos 20 anos o Bahia disputou doze edições da Série A, enquanto o seu rival doméstico, o Vitória, esteve no grupo de elite em dez temporadas. Fortaleza e Ceará apresentaram um crescimento sustentável no novo século. Ambos escreveram seus nomes em 8 edições (cada um), no Brasileiro da Série A. O Sport foi o único clube pernambucano que evoluiu nas duas últimas décadas. O Rubro-negro da Ilha do Retiro marcou presença na Série A em 12 edições. O Náutico, que há doze anos está fora da elite do futebol brasileiro, disputou a Série A em 2007,2008,2009, 2012 e 2013, ou seja, cinco vezes nos últimos 20 anos. O Santa Cruz passou de passagem duas vezes pela elite nacional: 2006 e 2016. O passado do futebol pernambucano é glorioso. Isto é incontestável. O Náutico foi vice-campeão brasileiro na década de 60, representou o futebol brasileiro numa edição da Libertadores; o Santa Cruz se agigantou na década de 70, disputou doze jogos internacionais e se manteve invicto conquistando o título simbólico de “Fita Azul do Futebol Brasileiro”. Nos anos 80 o futebol pernambucano chegou a ter quatro – Sport, Náutico, Santa Cruz e Central – disputando a Primeira Divisão do Campeonato Brasileiro. O Sport foi campeão brasileiro e representou o Brasil na Libertadores de 1988. Durante décadas nossos clubes mantiveram a hegemonia do futebol nordestino. Contra fatos e números não existem argumentos. Os comandantes do nosso futebol se portavam, e eram respeitados como grandes generais. Na crônica esportiva, nomes como Ivan Lima, José Santana, Adonias de Moura, Lenivaldo Aragão, Barbosa Filho, Luís Cavalcanti... eram vacinados contra o ufanismo. Tempo, tempo, tempo! Ligo o rádio e as entrevistas me deixam atônito com tanta pabulagem. Deduzo rapidamente: estão comendo galeto e arrotando lagos

 

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