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O Kurtiss do Loide transportou muito time Brasil afora (Reprodução) |
As viagens no futebol nem sempre foram um luxo
LENIVALDO ARAGÃO
Ao tomar conhecimento do susto duplo que os jogadores do Náutico tomaram na ida e na volta, na viagem aérea a São Paulo para o jogo contra o São Bernardo, lembrei meu primeiro voo. Foi em 1959, quando ainda dava os primeiros passos na profissão, já de carteira assinada com o Diário de Pernambuco (repórter) e com a Rádio Clube de Pernambuco (redator). Ambos pertenciam aos Diários Associados, um conglomerado espalhado pelo Brasil, pertencente ao dinâmico paraibano de Umbuzeiro, Assis Chateaubriand, a quem conheci pessoalmente, apresentado pelo então secretário da Redação (hoje seria o editor geral) do DP, Antônio Camelo. Mas isso é outra história.
Começo de ano, enquanto
esperava o início do Campeonato Pernambucano, o Santa Cruz acertou três
amistosos em Fortaleza (Ferroviário, Fortaleza e Ceará) e dois, na volta para o
Recife, em Natal (América e ABC). Fui designado pelo chefe Adonias de Moura
para cobrir aquela mini excursão do Tricolor do Arruda. Num sábado à tarde, com
a Cobra Coral já na capital cearense, peguei um Curtiss C 46, com dois motores
movidos a hélice, do Loide Aéreo Nacional, que procedia do Rio de Janeiro rumo
a Fortaleza, escalando em Vitória, Ilhéus, Salvador, Aracaju, Maceió, Recife,
Campina Grande e Natal. A velocidade era bastante rduzida em relações aos velozes jatos de hoje.
Na capital cearense, no jogo Ferroviário
x Santa Cruz, o atacante Zé de Melo, cujo passe havia sido comprado pelo
Santinha ao Tubarão defendeu um dos dois clubes a cada tempo.
Compromissos saldados em
Fortaleza e Natal, numa segunda-feira cedo, a delegação do Santa estava no
Aeroporto Augusto Severo, em Parnamirim, na Grande Natal, e eu também. A
delegação viria pelo Loide.
A aeronave, que faria ainda
uma escala na Rainha da Borborema, procedia de Fortaleza e aterrissou no Rio
Grande do Norte com um problema. Passamos três horas esperando que os técnicos
da companhia consertassem o chamado pássaro metálico. Lembro-me que ao serem
chamados os passageiros para o embarque, o ponta-esquerda Jorginho, preocupado, ao cruzar com o
comandante perguntou: “Como é chefe? O avião tá bom mesmo?” A resposta me deu
coragem: “Você não quer viver? Também quero, se ele não estivesse cem por cento
eu não subia”. Viagem tranquila. Ao meu lado, Amaury, o futuro assistente
técnico Amaury Santos, seguiu o tempo todo com a cabeça enrolada numa toalha, o
que era praxe, isso porque o grande meia armador tinha o maior medo das viagens
aéreas.
Voei bastante a trabalho e
depois daquele besteira na primeira viagem, assustado mesmo fiquei no dia 22 de
novembro de 1963. Ainda no DIÁRIO DE PERNAMBUCO, integrei uma caravana de
cronistas esportivos que foram e voltaram do Rio, pela FAB, convidados por
Rubem Moreira, o presidente da Federação Pernambucana de Futebol, para fazer a
cobertura, por conta da CBF, da decisão entre Santos e Milan, do título de
campeão mundial entre clubes. Na Itália, o Milan, contando com os brasileiros
Mazzola e Amarildo, campeões da Copa do Mundo pelo Brasil em 1958 e 1962,
respectivamente, levou a melhor pelo categórico placar de 4 x 2. No segundo
jogo, com o Maracanã explodindo, o Santos sem Pelé, machucado e substituído pelo
pernambucano Almir, devolveu o placar, gols de Pepe (2), Almir e Lima, para os brasileiros,
Mazzola e Mora para os italianos. Na terceira e decisiva partida, ainda no Maracanã,
o Peixe fez a festa, assinalando a sofrida contagem de 1 x 0, gol de Dalmo,
cobrando pênalti. O Santos que tinha sido campeão em cima do Benfica, tornou-se
bi.
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Reprodução |
No regresso ao Recife num
quadrimotor, também a hélice, da nossa Força Aérea, sentados de lado, em
assentos instalados a meia altura – estávamos num avião que transportava cargas
e nada tinha de lazer – decolamos do Galeão diretamente para Natal. Na capital
do Rio Grande do Norte desceria um pessoal da FAB após o que a aeronave voaria
para o Recife, onde pernoitaria, seguindo no outro dia para Fernando de
Noronha.
Apesar do desconforto, com o
veterano Jota Soares ao meu lado rezando o tempo todo, as coisas corriam bem,
quando, sobrevoando o Estado de Alagoas, o que se viu foi tripulante correndo
de um lado a outro. Tinha tocado alarme,
em virtude de um defeito no avião, que teve que mudar de rota, tomando o prumo
da capital pernambucana em vez de seguir para Natal. E tome nervosismo. Para
encurtar a conversa, na descida no Aeroporto dos Guararapes, o avião dirigiu-se
ao setor militar e quando o comandante desceu foi festejado verdadeiramente
como um herói por uma multidão de oficiais e praças que tinham ido ver de perto
o desfecho do voo em meio a ambulâncias e viaturas do Corpo de Bombeiros
preparados para agir. Quem não teve medo lá em cima passou a ter.
Pouco depois ao chegar ao DIARIO,
vejo na frente do prédio uma tabuleta com esta inscrição: “ASSASSINARAM KENNEDY”.
O presidente John Kennedy, dos Estados Unidos havia sido assassinado horas
antes.
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