MUNDO DA BOLA-Lenivaldo Aragão

 

Foto: Reprodução


Ramón Dinamite, o árbitro paraibano que apitava divertindo a plateia (1)



 

Ele reinou há muito tempo no futebol paraibano, mais especificamente em Campina Grande, onde muita gente ia ao estádio só para rir com suas presepadas. Vamos a uma delas:

Um jogo entre os juvenis do Treze e do Campinense corria solto. O empate, em se tratando dos dois principais times da Rainha da Borborema, agradava a gregos e “trorianos”, como dizia um presidente do Central, comerciante em Caruaru, cujo nome não cito aqui porque ele já morreu e não pode mais contestar.

Bola rolando. De repente surge o maior tumulto na área do Campinense. E aquele misterioso senhor, vestido com uma bata preta, depois de muitos e variados trejeitos, deita-se no campo, rola no gramado com o apito na boca e assinala: pênalti!

Não, a cena não aconteceu num manicômio. Muito menos num circo. Aconteceu em pleno Estádio Amigão, diante das duas torcidas que dividem a cidade. A partida era disputada para valer. Jogo de campeonato, pois não.

E o estranho cidadão, que muita gente pensava que fosse uma assombração, envolto na estranha vestimenta que atingia os joelhos, era a chamada autoridade máxima do gramado, sua excelência o árbitro, como diria o austero Mário Vianna – com dois enes, conforme o célebre árbitro carioca enfatizava.

Para uns, ele era, simplesmente, um maluco que necessitava de permanentes cuidados médicos; para outros, um palhaço que usava dos meios mais extravagantes possíveis para aparecer.

De uma forma ou de outra, o, naquele tempo laboratorista químico Severino Ramos Florêncio, funcionário da Wallig Nordeste, na Rainha da Borborema, casado e pai de uma menina, membro da Igreja Congregacional, tornou-se uma figura folclórica como juiz de futebol.

Sua maneira de dirigir os jogos chegou a merecer o protesto dos colegas que, reunidos, decidiram pedir sua eliminação da Liga Campinense de Desportos, na qual ingressou, depois de surgir no futebol de salão em 1972.

Só que o movimento não surtiu efeito, pois além de contar com o apoio da crônica esportiva de Campina Grande, Severino, conhecido popularmente como Ramón Dinamite, justamente por seus gestos estapafúrdios, tinha também, a simpatia do chefe dos árbitros, que não via qualquer transgressão às leis da Fifa, nem mesmo na bata por ele usada.

– Procuro divertir o público, principalmente quando o espetáculo está ruim, mas não desobedeço às regras – explicava-se.

E como divertia! Ramón Dinamite já terminou jogo ajoelhado ou sentado no centro do campo, dando uma série de dez apitos.

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