A tropa de choque do Santa numa missão impossível
Nesta
terça-feira, 3 de fevereiro de 2026, o Santa Cruz Futebol Clube comemora 112
anos de fundado, o que aconteceu em 3-2-1914.
A história do surgimento do Tricolor já foi contada em prosa e versos
através dos tempos. Os casos engraçados
são inúmeros e para marcar a data, aqui neste espaço, vou rememorar um deles.
Véspera
de um jogo importante do Santa Cruz. O técnico Duque como era praxe, consultou
uma mãe-de-santo conhecida, que lhe pediu um bode cem por cento preto, sem
qualquer sinal branco, para ser oferecido aos orixás. Pragmático e obediente, o
treinador mineiro despachou seus assessores de confiança para irem em busca do
caprino capaz de atender às exigências extraterrenas. Uma tarefa não tão fácil.
No Agreste ou no Sertão, num abrir e fechar de olhos, a oferenda estaria no
terreiro. Mas no Recife...
Lá
se foi, num sábado à noite, o massagista João de Maria, dirigindo o carro do
volante Norberto. Com ele, o roupeiro Luís e Mallada, um médico uruguaio, que
havia caído de paraquedas no Arruda. Era pau-pra-toda-obra. O trio ultrapassou
as fronteiras municipais e foi até Jaboatão dos Guararapes. Em vão. Nenhum bode
dando sopa na escuridão.
Havia
pressa. João de Maria atolou o pé, na volta. De repente, foi parado por um
soldado do Exército, de fuzil à mão. Foi aí que descobriu que passava muito
acima da velocidade permitida, diante do quartel do 14º RI, na Vila Militar
Floriano Peixoto, em Socorro. Logo apareceu o oficial-de-dia, dando esporro e
ameaçando prendê-los. Todos com muito medo. Finalmente, eram tempos brumosos,
época dos atos institucionais, com os “subversivos” sendo farejados por todos
os quadrantes. No caso do trio, o perigo aumentava por causa da presença de
Mallada. Magro, olhar meio desconfiado, sua aparência tinha tudo a ver com o
apelido de Tupamaro que lhe haviam dado no Arruda. Ainda mais falando
atrapalhado (Tupamaros eram os
integrantes do “Exército de Libertação Nacional”, que, através da guerrilha
urbana, combatia o governo militar no Uruguai. Na realidade, Mallada era um
deles. Fugido de sua terra, apareceu no Arruda lavando os carros dos jogadores.
Depois identificou-se como massagista e começou a ajudar João de Maria. Até que
um dia declarou-se médico e revelou sua legítima identidade. E por lá foi
ficando, às escondidas, sempre à disposição de Duque e provocando algum
desconforto entre os médicos do clube).
Com muita lábia, a trinca foi
liberada. Ao deixar a área militar, João de Maria, no passado, jogador do
Santa, disparou novamente, agora rumo a Paulista, no lado oposto, depois de
atravessar o Recife e Olinda. Na praia da Conceição, vibração. Era como se o
Santa tivesse feito um gol no Sport, seu adversário do dia seguinte. Um bode
preto apareceu junto da pista, certamente enviado pelos entes que rondam o
futebol. Todavia, logo veio a decepção. Não servia porque a perna direita tinha
uma pequena mancha branca. João de Maria chegou a propor que se pintasse aquela
parte com tic-tac, a tinta que os
engraxates usam. Negativo. Se por qualquer motivo a tinta desaparecesse, os
três ficariam sujos com o homem. Conformados com o fracasso, já em plena
madrugada, resolveram regressar. Duque não iria gostar, sabiam, pois se
sentiria espiritualmente descoberto. Mas, fazer o quê?
Só
que a aventura não parou aí. Ao ser abordado pela Polícia Rodoviária estadual,
no Janga, João de Maria descobriu que a documentação do veículo estava
irregular. Desculpou-se e identificou-se
como massagista do Santinha em missão oficial. Caiu nas graças de um guarda,
tricolor de corpo e alma, que aproveitou para lhe pedir um favor. “Sou sócio,
mas estou com a mensalidade atrasada. Vocês podiam dar um jeito nisso aí?”
Positivo. João pegou a carteirinha do policial e botou no bolso, prometendo
zerar a dívida. O que jamais aconteceu.
Nem também a carteira foi devolvida. Cioso de sua responsabilidade, o pequeno
pelotão ainda passou, inutilmente, pelo matadouro de Peixinhos, hoje
desativado.
Na
hora do jogo, os três torceram ardorosamente para o Santa vencer o Sport. Só
assim tirariam um peso da consciência e poderiam encarar Duque numa boa. Mas
deu o contrário. Vai ver que com o tic-tac no bode teria havido pelo menos um
empate e eles salvariam pelo menos a metade da cara. Tiveram foi que enfrentar
por vários dias o mau humor do treinador.

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