Tem Bola no Frevo-Lenivaldo Aragão (5ª e última)

 

Pelé e a Seleção campeã mundial de 1958 descendo no Recife (Reprodução)


 

REI PELÉ LOUVADO POR SEBASTIÃO LOPES, MÁRIO FILHO E LUIZ QUEIROGA



 

Quando a Seleção Brasileira, depois de ter levantado seu terceiro título de campeã mundial, no México, em 1970, preparava-se para disputar a Copa de 1974, na Alemanha, na qual ficaria em quarto lugar, houve uma verdadeira comoção nacional pela permanência de Pelé, que tinha anunciado seu propósito de deixar a Canarinha, o que terminou acontecendo.

Numa das inúmeras estadas do Rei, no Recife, a revista Placar, da qual eu era correspondente em Pernambuco, me pediu um pronunciamento  do Atleta do Século XX, diante da preocupação, dominada por fortes doses de nervosismo, que corria o Brasil, de ponta a ponta.

O miolo da publicação era fechado às sextas-feiras, ficando para o sábado e o domingo a cobertura dos jogos que rolavam País afora naqueles dias. Recebi uma pauta numa quinta-feira, com o sol já em declínio para dar lugar à noite.

Dirigi-me ao Hotel São Domingos, na Praça Maciel Pinheiro, na Boa Vista. Pelé já me conhecia de outras vindas ao Recife – muitas, aliás – e por ter eu acompanhado o time do Santos, a serviço do bicentenário DIARIO DE PERNAMBUCO, na caminhada final em busca do milésimo gol.

Encontrei Pelé numa sala que dava para o restaurante, numa reunião com a direção  do Banco Industrial de Campina Grande, do qual desde a Copa de 1970 era garoto-propaganda.

O grande mito do futebol mundial, que sempre tratou a imprensa, fosse lá quem, com a maior das atenções após ouvir minha explicação de que a Placar estava só esperando por minha matéria para fazer o fechamento da parte central, interrompeu a conversa com os executivos da poderosa organização bancária paraibana e ali mesmo me disse que sob hipótese alguma voltaria à Seleção. Sua participação em Copas tinha se encerrado, mas acreditava o poder da equipe que estava sendo preparada por Zagallo, bicampeão como jogador em 1958-62, e campeão como técnico em 1970.

Na sexta-feira, logo cedinho estava acordado, feito o Timbu Coroado, madruguei na Sucursal da Editora Abril, na Siqueira Campos, e mandei a reportagem, terminando o texto desta forma: “Se é verdade que rei não volta sua palavra atrás, o torcedor brasileiro pode se desiludir quanto à possibilidade da ida de Pelé à Alemanha para disputar o próximo Mundial.” Com o título “Palavra de Rei”, intitulando  a matéria, Pelé carimbava sua decisão.

Houve muita discussão sobre o assunto, não faltando quem pensasse que, diante da verdadeira hecatombe sentimental que sua atitude estava causando, Pelé terminaria dando o dito pelo não dito, o que infelizmente não aconteceu.

A comoção que tomou conta do País não passou despercebido pelo compositor e folclorista Sebastião Lopes, autor de “Pelo Sport Tudo – Moreninha que estás dominando...”, juntamente com Nelson Ferreira, em 1936.

Sebastião Lopes (Arquivo)

Da cabeça do festejado artista pernambucano saiu, às vésperas do Carnaval de 1974,   o frevo-canção “Volta, Pelé”, na verdade um dramático pedido para que o Rei disputasse a que seria sua quinta Copa do Mundo. Vejamos a letra:


“Milhões de brasileiros
Estão em aflição
Com a saída de Pelé
De nossa Seleção
O rei tricampeão
Promete que vai voltar
Volta, Pelé, volta, Pelé
Na sua Canarinha
Acabou-se aquele olé
Volta, Pelé, volta, Pelé
II
Oitenta milhões em ação
Esperando o show de pé
Mostre que é tricampeão
Mostre que tem coração

III

Tá todo mundo sofrendo
Com essa nossa Seleção
Obrigado, Pelé
Pelo tri mundial
Pra bem da Canarinha
Seleção nacional”
O maior craque de todos os tempos foi ainda citado num frevo de Mário Filho, radialista e pesquisador musical. No frevo-canção “Quem me quer”, o compositor fala em esperar o seu amor no “Quem-me-Quer”, um trecho entre as pontes Duarte Coelho e Boa Vista, à margem do Rio Capibaribe, no centro do Recife, em tempos idos, local de paquera. Diz Mário Filho na sua primeira estrofe:
“Vou esperar o meu amor
No Quem-me-Quer
No Quem-me-Quer
Eu sou o rei Pelé”.

DIDI, PELÉ, VAVÁ

Antes de ser o Rei do Futebol, Pelé já aparecia numa música feita em Pernambuco. Falo de “Escola de Feola”, classificada como batucada, com letra  do ambivalente artista de rádio e televisão Luiz Queiroga, composição musical do maestro Nelson Ferreira e interpretação de Os Três Boêmios, gravação em selo Mocambo, da consagrada fábrica de discos Rozenblit. Música que foi tocada em autofalante em pleno Aeroporto dos Guararapes, quando os campeões do mundo em 1958 desciam do avião, numa escala no Recife, no regresso da Suécia. Vejamos:

“Didi, Pelé, Vavá

Bailaram lá na Europa

E a Copa vem pra cá ( no duro )

Gilmar, De Sordi e Bellini

Famoso trio final

Fizeram do meu Brasil

O Campeão Mundial

Zagallo, Zito, Garrincha

Nilton Santos e Orlando

São os Campeões do Mundo

Que o Brasil está saudando

Cinco a Dois.


Luiz Queiroga (Instagram)



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