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| Charge de Clériston |
A primeira grande encrenca de
Almir Pernambuquinho
Em 1956, numa de suas
corriqueiras excursões ao Norte, o Sport, bicampeão pernambucano, aportou no
Maranhão para realizar dois amistosos. Dirigido pelo argentino Dante Bianchi, o
Leão empatou por 1 a 1 com o Maranhão Atlético Clube, popularizado como MAC, e
derrotou o Sampaio Corrêa, o Bolívia Querida, por 2 a 1.
O técnico leonino tinha
incluído na delegação um garoto que estava jogando um bolão no juvenil, pintando
como futuro craque. Era Almir Moraes de Albuquerque, que mais tarde se consagraria como atacante do
Vasco da Gama, chegando à Seleção Brasileira e atuando na Argentina e na
Itália. Apesar de seu futebol brilhante a ponto de ter sido apelidado de Pelé
Branco, Almir, apelidado de O Pernambuquinho, tornar-se-ia famoso mesmo pela
valentia. Mexeu com ele, podia esperar que haveria volta. E como!
O segundo amistoso do Sport
naquela visita à capital maranhense estava sendo disputado no Estádio Nhozinho
Santos, o melhor da cidade. O árbitro era
Antônio Bento, de forte ligação com o Sampaio, do qual mais tarde seria presidente.
Com a força da torcida, ele terminou sendo eleito, um bom tempo depois,
deputado estadual.
O estádio estava lotado, e o
Sport jogava bem, tanto que conseguiu abrir o placar. O Sampaio não se deu por
vencido e partiu em busca do empate, que conseguiu.
A certa altura, o juiz marcou um
pênalti a favor do time da casa. Os jogadores do Sport acharam que não foi, mas
não adiantaram as reclamações porque Antônio Bento estava apontando a marca da
cal com muita autoridade.
Para gáudio dos
visitantes, como diria meu saudoso colega na Rádio Clube de Pernambuco, Cesar
Brasil, o batedor da penalidade máxima errou a pontaria e mandou a bola para
longe da barra onde se encontrava o alagoano Carijó. Com isso, os torcedores
maranhenses ficaram profundamente irritados, e os jogadores locais passaram a
ser dominados por intenso nervosismo.
Veio o segundo tempo, com o
Sport resistindo ao assédio do adversário e assinalando mais um gol: 2 a 0. O Sampaio reagiu
e diminuiu a diferença. Com o placar manual do estádio marcando 2 x 1, o tricolor maranhense saiu com gosto de
gás à procura do empate. O Sport resistia heroicamente. Porém, eis que em determinado momento, Sua Senhoria, o árbitro,
assinalou outra penalidade máxima para o time da casa cobrar. Novo protesto dos
visitantes, agora botando pra quebrar no assédio a Antônio Bento.
O lateral esquerdo Pinheirense
era o capitão do time pernambucano. Maranhense, nascido na cidade de Pinheiro, tinha
jogado na capital do Estado antes de baixar na Ilha do Retiro. Chiou com o “homem de preto”, dizendo que ele estava
protegendo demais o Sampaio. Pinheirense
e Antônio Bento estavam naquela conversa mole, foi não foi, quando apareceu
Almir, que vinha numa corrida louca, feito um touro brabo em plena arena, e
disparou um soco na boca do juiz. Formou-se um aranzé. Jogadores do Sampaio tomaram
para si as dores do árbitro e partiram para cima de Almir, que já contava com a
proteção do goleiro Carijó – pai de Washington e Welington, igualmente
apelidado de Carijó, ambos seguidores, no futuro, da posição do “velho”. Também
entrou no bolo o centroavante Ilo, conhecido entre os companheiros, como Ilo
Doido, parrudo, bom de tapa e incansável folião nas ladeiras de Olinda.
Torcedores invadiram o campo e
agora era todo o time do Sport, incluindo os reservas, dando proteção ao garoto
que estava sendo promovido do juvenil.
– O oito e o sete – ordenava um
maranhense que liderava a invasão, referindo-se a Ilo e Almir, que já haviam
distribuído muitas bordoadas com os primeiros invasores. Eram eles que a galera
deveria pegar para o acerto de contas.
A fim de dificultarem a
identificação dos dois escolhidos para levar as porradas maranhenses, todos os jogadores do Sport tiraram a camisa. Nisso,
a polícia chegou e afastou Almir, Carijó e Ilo do rolo, para abrigá-los num
camburão. E o jogo terminou ali mesmo, pois nem juiz havia mais.
O coitado do Antônio Bento
saiu de campo com a boca sangrando, indo à procura de uma urgência
odontológica, enquanto os jogadores do Sport se acomodaram no ônibus rumo ao
hotel, sob proteção policial. Houve uma ordem expressa da chefia da delegação
para que Almir só botasse o pé na calçada no dia seguinte, na hora de seguir
para o aeroporto, com a delegação. E assim foi feito.
Pelo sim e pelo não, no saguão
do antigo Aeroporto de Tirirical, enquanto aguardava o chamado para o embarque,
o menino enfarruscado que o Sport tinha
levado a São Luís, estava sempre em
algum grupo de jogadores mais experientes, diante do olhar pouco amigável de um
e de outro maranhense.

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