TEMPO DE SELEÇÃO-Lenivaldo Aragão (1)

 

Uma das quatro seleções de 1966, com os pernambucanos Manga e Nado (Reprodução)


Em 1966 houve muito erro e o Brasil bicampeão sobrou nas oitavas

 


Como estamos em fase de Seleção Brasileira, que pela primeira vez na sua existência é dirigida por um estrangeiro, o italiano Carlo Ancelotti,  publicaremos  alguns episódios a ela relacionados em épocas e situações diferentes.

Recordaremos, de saída, a Seleção de 1966. O Brasil tinha sido campeão em 1958, na Suécia, sob o comando de Vicente Feola. Diziam que ele cochilava no banco, o que foi contestado por  Nilton Santos. O treinador sofria de uma doença que em dados momentos o levava a piscar os olhos, afirmou a Enciclopédia da Copa numa entrevista. Nilton considerava uma grande injustiça ao treinador aquele boato.

A verdade é que com ou sem a apregoada dormideira do treinador, pouco conhecido, embora trabalhasse no São Paulo, o Brasil encantou o mundo com seus mágicos da bola, e trouxe a cobiçada taça Jules Rimet. Ao descer no Aeroporto Internacional dos Guararapes para um desfile no Recife, não programado. A improvisada escala recifense só se concretizou  depois que o então presidente da Federação Pernambucana de Futebol, Rubem Moreira, armou um verdadeiro aranzé no avião.

Em solo pernambucano, a delegação foi recebida ao som do samba Escola de Feola, de autoria do consagrado Luiz Queiroga, na voz dos Três Boêmios, um dos vários conjuntos regionais da Rádio Clube de Pernambuco, à qual Queiroga, um radialista de múltipla atividade, também pertencia. Eis a letra:

“Didi, Pelé, Vavá

Bailaram lá na Europa

E a Copa vem pra cá

(No duro)

Gilmar, De Sordi e Bellini

Famoso trio final

Fizeram do meu Brasil

O campeão mundial

Zagallo, Zito e Garrincha

Nilton Santos e Orlando

São os campeões do mundo

Que o Brasil está saudando

Cinco a dois”.

PERNAMBUCANIDADE

Entre os campeões estava o centroavante Vavá, recifense,  que na adolescência jogava num time do bairro de Santo Amaro, dirigido por seu pai, Sr. Odilon, um investigador de polícia – hoje seria agente – muito respeitado. Logo Vavá estava na base do Sport, de onde rumou para o Vasco da Gama. Edvaldo Izídio Neto seguiu os passos do célebre conterrâneo Ademir, saído da Ilha do Retiro em 1942 para vestir a camisa do Almirante, tendo se tornado vice-campeão e artilheiro, com 9 gols, da Copa de 1950, realizada no Brasil.

Veio 1962, e o Brasil sagrou-se bicampeão, agora no Chile. Novamente Vavá em ação, marcando gols decisivos, repetindo o sucesso de quatro anos atrás. Desta vez havia  outro pernambucano no grupo de jogadores, o volante Zequinha, reserva de Zito, o capitão do Bi. Também saído do popular bairro de Santo Amaro, Zequinha tornou-se supercampeão de 1957 pelo Santa Cruz e logo passou a viver uma fase esplendorosa na decantada Academia de Futebol do Palmeiras.

No bicampeonato mundial, o técnico foi outro, Aymoré Moreira, cujo irmão Zezé Moreira, também treinador, estava à frente do “Escrete” no Mundial de 1954, disputado na Suíça.

A “despreparação”, como chamava uma parte da imprensa com os treinamentos visando à Copa da Inglaterra, quando o Brasil tentaria o tricampeonato, levou quase quatro meses, com o elenco nacional se localizando em pontos diferentes – Caxambu e Lambari, em Minas Gerais; Teresópolis, no Rio de Janeiro, Serra Negra e São Paulo, no Estado de São Paulo.

De saída houve uma polêmica porque uma parte dos cartolas, à frente o paulista Paulo Machado de Carvalho, denominado pela mídia O General da Copa, pretendia manter Aymoré no comando técnico, enquanto outro grupo influente queria a volta de Vicente Feola. Ponto para Feola.

Diante da profusão de craques (com C maiúsculo) que vinha mostrando sua habilidade de Norte a Sul, de Leste a Oeste, e de interesses da cartolagem, foram convocados para os preparativos iniciais 47 jogadores.

Pela primeira vez Pernambuco teve um jogador chamado diretamente de um clube da terra. É certo que esse atleta, o ponta-direita Nado, do Náutico, estava em negociações para defender o Vasco da Gama. Todavia,  nada havia sido ainda definido, e ao ser incluído na lista, o jogador alvirrubro foi citado como um profissional do Timbu.

Na concentração da Granja Comari, ainda não pertencente à então CBD (Confederação Brasileira de Desportos) os jogadores seriam capazes de tropeçar uns nos outros, posto que havia quase meia centena participando dos treinamentos.

No dia 12 de abril de 1966 houve um festival de futebol em Lambari, com a participação de quatro equipes formadas pelos convocados e identificadas pelas cores. Vejamos:

AZUL: Valdir de Morais (Palmeiras); Djalma Santos (Palmeiras), Djalma Dias (Palmeiras-RJ), Leônidas (América-RJ) e Paulo Henrique (Flamengo); Dino Sani (Corinthians) e Denílson (Flamengo) – depois Lima (Santos); Paulo Borges (Bangu), Flávio Minuano (Corinthians), Parada (Botafogo) e Ivair (Portuguesa de Desportos).

BRANCA: Manga-pernambucano (Botafogo); Murilo (Flamengo), Brito (Vasco), Fontana (Vasco) e Oldair (Vasco); Roberto Dias (São Paulo) e Fefeu (Flamengo); Garrincha (Botafogo), Alcindo(Grêmio), Silva (Flamengo) e Rinaldo-pernambucano (Palmeiras).

GRENÁ: Gylmar (Santos); Carlos Alberto Torres (Santos), Bellini (São Paulo), Orlando Peçanha (Vasco) e Rildo-pernambucano (Santos); Zito (Santos) e Gérson (Botafogo); Jairzinho (Botafogo), Servílio (Palmeiras), Pelé (Santos) e Paraná (São Paulo).

VERDE: Ubirajara Motta (Bangu); Fidélis (Bangu), Ditão (Flamengo), Altair (Fluminense) e Edson Cegonha (Corinthians); Lima (Santos) e Denílson (Fluminense); Nado (Náutico), Célio (Vasco), Tostão (Cruzeiro) e Edu (Santos).

Fizeram parte ainda da lista, Fábio, goleiro (São Paulo), Ditão, zagueiro (Corinthians),  Dudu, apoiador (Palmeiras), Amarildo, atacante (Milan / ITA), Jair da Costa, atacante (Inter de Milão / ITA.

 Terminaram viajando para a Inglaterra, Gylmar e Manga (goleiros); Djalma Santos, Fidélis, Paulo Henrique e Rildo (laterais); Bellini, Altair, Brito e Orlando Peçanha (zagueiros); Denílson, Lima, Gérson e Zito (apoiadores); Garrincha, Edu, Alcindo, Pelé, Jairzinho, Silva, Tostão e Paraná (atacantes).

Foi um fracasso. O Brasil não passou das oitavas de final, tendo sido esta sua decepcionante campanha:

Brasil 2 x 0 Bulgária

Brasil 1 x 3 Hungria

Brasil 1 x 3 Portugal

A reabilitação viria quatro anos  depois, em 1970, com o terceiro título e a conquista definitiva da taça Jules Rimet, do México.

 

Comentários