Santa Cruz do Capibaribe

 

Reprodução Tik Tok


SONHOU COM O CHEFE DO POLICIAMENTO E JOGOU BURRO



Contei o caso do “time dos meninos” de Santa Cruz do Capibaribe. Como uma história puxa outra, lembrei-me de uma daqueles tempos de minha adolescência na amada cidade natal, envolvendo o mesmo personagem da outra narrativa, o “dono” do time, Zé Carvalho. Esta pouco tem com futebol.

Eu havia saído do Seminário São José, de Pesqueira, depois que o reitor, padre Augusto Carvalho, mais tarde bispo de Caruaru, chegou à conclusão de que, brincalhão como era, cheio de presepadas, eu teria mesmo que ir baixar noutra sessão, posto não atender aos preceitos eclesiais. Fica bem claro que não fui desligado peremptoriamente, mas aconselhado a não voltar após as férias de fim de ano. Ou seja, estava obtendo “férias prolongadas”, como dizíamos no Seminário.

Ainda tenho muitas recordações dos três anos que passei no internato ao pé da Serra do Ororubá, domínio dos índios xucurus.

Passei algum tempo no “limbo” em minha terra, depois de festejar a passagem de vila para cidade, juntamente com Toritama, ambas se desligando de Taquaritinga do Norte, da qual santa-cruzenses e toritamenses permanecem aliados.

Antes de vir para o Recife, onde estou até hoje, desempenhei algumas atividades, como locutor de serviço de autofalante, com resenha esportiva e o habitual programa com oferendas musicais, tipo de alguém para você, e gerente de banca de bicho.

Na época, o sorteio diário era procedido pela Loteria de Pernambuco. Às três horas da tarde em ponto, ouvia-se de um canto a outro do Estado, a notícia fornecida pela Rádio Clube de Pernambuco, do tipo: “Atenção, senhores concessionários do Interior, Loteria informa o resultado de hoje: 3, 7, 0, 9 (só um exemplo).  Em certo tempo, em vez de números usava-se código para evitar alguma tramoia. Escolhia-se uma palavra chave que tivesse dez letras, nenhuma repetida. Era o código, ao qual pouquíssimas pessoas tinham acesso, como Pernambuco: P (1) E (2) R (3) N (4) A (5) M (6) B (7), U (8), C (9) O (0). E o locutor caprichava: N de Noêmia, C de Carlos, U de Ulisses e E de Ernesto – 4 9 8 2. Tínhamos assim o Touro no grupo (21),com suas quatro dezenas: 81, 82, 83, 84.

Na calçada ou na sala da banca sempre havia, além dos cambistas ou passadores do jogo de bicho, pessoas esperando a divulgação do resultado. Em certa tarde, o respeitável cabo Zé Cordeiro, chefe do destacamento policial local, fazia parte da turma. De compleição forte, estava sempre dando tragadas num enorme charuto que tratava com muito carinho. Enquanto o bicho não vinha falava-se sobre vários assuntos, como o amistoso do Ypiranga, no domingo seguinte, contra o Sport Club Surubim, lá na terra deles. O Ypiranga tinha alguns jogadores raçudos e bons de bola, como o célebre goleiro Zé Fuminho, Caroço-soldado de polícia e seresteiro,  Vicente, Pedro Paulo, Macaco, Mário, Estoécio, Totonho, Heleno Pratinha, Nelson de Pretinha, conhecido como Nego Rico, Biu da Barra, Dida, Arnon, Afonso, Joãozinho e outros que estavam surgindo. Como sempre, o lateral Bernito estava vindo de Caruaru, às vezes acompanhado do goleiro Curau, quando Zé Fuminho estava no meio do mundo. Para o jogo em Surubim, a equipe da Terra das Gameleiras deveria estar enxertada pelo centromédio Lulinha, do Central, pelo veloz ponta-esquerda Cebinha, do Vera Cruz, também da Capital do Agreste, e talvez pelos irmãos Nelson e Geraldo, do Leão Treze, de Catende.  

Em dado momento, o falatório é interrompido pelo cambista Zé Carvalho, que se dirige ao cabo Zé Cordeiro: “Carlinda sonhou com o senhor e jogou burro...”

Surpresa, susto e silêncio, com todos se entreolhando diante daquela” ofensa” à autoridade. Carlinda era uma senhora muito querida em Santa Cruz, mãe de Heleno Pratinha e Val, que jogavam pelo Ypiranga, que convivia com todo o mundo. “Foi?” limitou-se a perguntar o policial antes de levar o charuto à boca para dar uma nova tragada.  “Foi”, respondeu seu interlocutor. Em seguida veio a explicação: “Por causa do quepe”. É que o chapéu que completava o fardamento da  autoridade trazia um 3 desenhado, em tamanho grande, de metal, indicando que o seu condutor fazia parte do 3º Batalhão da Polícia Militar de Pernambuco. E no grupo do jogo de bicho, o número 3, como se sabe, é burro.

Com a explicação de Zé Carvalho, filho de português, nascido em  Jardim do Seridó (RN), com vivência em Paulista (PE), Santa Cruz do Capibaribe (PE) e São Paulo (SP), todos respiraram aliviadamente. E o cabo José Cordeiro acompanhou o riso da plateia.

Obs.: ainda tenho outra história para contar.

 

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